quinta-feira, março 08, 2018


Ciao!



Confesso que levei um susto quando recebi este livro como cortesia da editora Paralela. Do alto da minha mente acostumada a caçar resposta sobre tudo (jornalista 24/7), pensei que escapava de tudo que eu costumo escolher para ler.
Até cair a ficha de que tem coisa que a gente não escolhe, precisa saber. Informação salva vida. E se tem algo que ainda é uma dificuldade para muitas mulheres é entender o funcionamento do próprio organismo.

Viva a vagina - tudo o que você sempre quis saber - Nina Brochmann e Ellen Støkken Dahl – Paralela
(Gleden med skjeden: Alt du trenger å vite om underlivet - 2017)

As duas autoras são estudantes norueguesas de Medicina. Tiveram a ideia de criar um blog chamado Underlivet (Partes Íntimas) onde pretendiam esclarecer dúvidas sobre o organismo feminino. Imaginaram que não teriam tanto acesso ou quando muito as perguntas vindas de adolescentes envergonhadas de conversar com mães, pais ou médicos.

Surpresa: não foi o que aconteceu. Pela forma clara como tiravam as dúvidas, elas começaram a ter muitos acessos e a receber perguntas de mulheres de todas as faixas etárias e origens.

Engraçado que isso não me surpreendeu. A minha surpresa foi outra. Mas uma coisa de cada vez. Primeiro, por que não fiquei surpresa: ora, um dos motivos mais comuns de chiadeira meu com alguns romances é autor(a) que trata protagonista virgem como tapada. Não ter feito sexo não deixa a pessoa desprovida de inteligência para aprender, pesquisar e se informar nem que seja sobre o básico: sexo desprotegido não é “prova de amor”. Até ter certeza de que o (a) parceiro (a) não tem nada, camisinha é essencial. Evita gravidez não planejada e doenças sexualmente transmissíveis.

A minha surpresa foi que eu me senti uma burra diplomada (e se quiser agravante, inclua o Mestrado no balaio). Faço parte do grupo de mulheres com acesso à informação: sou jornalista, posso pesquisar e conversar com a médica que me acompanha desde a adolescência. E lendo o livro percebi o quanto não sei nada sobre meu organismo e, pior, acreditava em mitos. Um exemplo: 
Você com certeza se lembra da heroica luta, ou corrida, entre os valentes espermatozoides, que nadam bravamente para ser o primeiro a fecundar o óvulo, passivo à sua espera. Primeiro ponto: o óvulo não está parado. Ele não está matando o tempo no bar enquanto espera ansiosamente a chegada dos espermatozoides. O óvulo é uma diva e, portanto, em geral, está elegantemente atrasado para a festa. (...) Não são os espermatozoides que nadam até o óvulo: é ele quem vai boiando em direção aos espermatozoides. Muitas vezes, eles já aguardam a sua chegada há dias...” (p.71-72) 
E eu tive professores ótimos nos ensinos fundamental e médio, o que significa que eles aprenderam errado! As autoras reclamam de coisas que são perpetuadas nas salas de aula das escolas e universidades da Noruega e que elas mesmas só descobriram que não era assim ao pesquisar para o livro. Agora se isso ocorre na Europa, tida por nós que vivemos abaixo do Equador como a referência a ser alcançada, imagine no Brasil.

Mas faz muito sentido: desde pequenas as meninas não são incentivadas a perguntar sobre o próprio corpo. Há desde os momentos bobeira de perguntas entre risinhos ou que te deixam vermelho-brilhante (sim, se você não passou por esta fase, parabéns. Dependendo da pergunta, eu engasgo até hoje para fazer). Claro que há famílias que conversam abertamente sobre as mais diferentes questões relacionadas à sexualidade – mas pelo que percebemos por aí, ainda não é a maioria, seja pelo fator cultural, por influências religiosas ou por pressão social. Por isso quando garotas (independente da idade) encontram uma chance de fazer isso sem sofrer recriminação ou se tornar alvo de algum comentário debochado – como foi com o blog das autoras – aproveitam.

Amigas e amigos, é fato: o ser humano é um trem muito complexo. Seja pelo aspecto físico, psicológico, mental... Visto do lado de dentro, então, misericórdia. Não dá pra você cravar isso ou aquilo, porque logo irá descobrir que existe muito mais do que supõe. E desinformação, informação incompleta ou mitos não ajudam ninguém sobre
assunto nenhum. Só atrapalham. Imagina então quando envolvem saúde.

As autoras elencaram os temas mais solicitados no blog e elaboraram este livro para responder e analisar as principais dúvidas. Abordam desde a composição do aparelho genital, sexo, gravidez, virgindade, doenças, uso de contraceptivos, abortos. Tudo isso, equilibrando a parte técnica – elas são estudantes de Medicina, afinal de contas – sem serem chatas ou pedantes. Ilustrações ajudam a gente a entender do que estão falando. Não é um livro que grita “eu sei e você não sabe”, mas um que te chama e diz o que está na capa “aqui tem o que você precisa saber”, mesmo que nunca tenha se dado conta desta necessidade. E se você quiser ter certeza do trabalho delas, o anexo tem mais de 32 páginas de bibliografia que elas consultaram para elaborar o livro.

Em um meio onde tanta gente diz nada com coisa alguma, fico feliz que Nina e Ellen souberam usar a internet de forma positiva e que criaram uma fonte confiável sobre o assunto. Resultado: o livro que eu não esperava ler, se ganhou uma cadeira cativa na estante.


Bacci!!!

Beta

Reações:

0 comentários :

Postar um comentário