domingo, abril 15, 2018

Ciao!





Se é a sua primeira vez no Literatura de Mulherzinha, bem-vindo! E de cara te apresento um fato: sou meio maluca (obcecada, diria #MadreHooligan) por Leonardo da Vinci. Uma longa história que envolve costume de ouvir músicas italianas, as Tartarugas Ninjas, uma pré-adolescente curiosa e descambou nisso: um desejo ainda não realizado de conhecer Florença e a vontade de ler tudo que for publicado a respeito dele e estiver ao meu alcance.

Vocês nem imaginam como cerquei esta biografia no fim de 2017. Ela foi meu “autopresente” de aniversário, comprado na Black Friday. Faz parte da Meta de Leitura para este ano. E eu a guardei justamente para hoje, 15 de abril – data de nascimento deste homem que se não foi o mais inteligente que pisou na Terra foi o que mais perto chegou disso.

Leonardo da Vinci – Walter Isaacson – Intrínseca
(Leonardo da Vinci – 2017)

Sou muito suspeita para falar. Desde que comecei a ler sobre Renascimento (leia e entenda o que as Tartarugas Ninjas tem a ver com isso), Leonardo da Vinci sempre me fascinou. Eu queria entender como um ser humano conseguia ter interesses tão variados e conseguir enxergar aquilo que outras pessoas não viam.

Este livro é absolutamente fenomenal em dissecar tudo o que for possível e ainda conjecturar possibilidades a respeito deste homem inacreditável, falho e bem a frente do seu tempo. Além de contar com uma edição caprichada (adorei as capas internas no tom de vermelho, entendi a referência!) e as imagens das obras ou das páginas dos cadernos que nos situam sobre o que está sendo falado em cada capítulo.

Em uma época repleta de pessoas ímpares em suas áreas, ele foi um que transitou por coisas tão variadas e conseguia relacioná-las. Se tivesse organizado suas descobertas, teria antecipado invenções e percepções que só foram relatadas séculos mais tarde. Pintura, escultura, desenho, teatro, música, poemas, oratória, engenharia mecânica, engenharia hidráulica, ótica, perspectiva, geologia, botânica, aeronáutica, paleoicnologia, anatomia, física, geometria (que ele não era tão bom)... Leonardo passou por isso tudo motivado pelos mais simples questionamentos: “por quê e como”.

Ele era muito curioso e isso o levou a fazer perguntas variadas, observar o todo a partir dos detalhes e elaborar respostas para várias delas. Em alguns casos não acertou, mas em outros foi certeiro. Um exemplo: ele descreveu o funcionamento do coração de uma forma que a tecnologia só foi comprovar no século 20. Outro exemplo: algumas das técnicas que ele pensou para drenar pântanos (mas não tinha tecnologia suficiente para executar) são praticadas atualmente.

Montagem: Intrínseca

Leonardo da Vinci buscava o conhecimento. A fascinação dele era aprender. Mesmo que depois não fosse usar para nada. Anotava em cadernos, na famosa escrita espelhada, em páginas com desenhos e temas que refletiam uma lógica própria que muitas vezes nos escapa. A observação da natureza o levou a pintar plantas, água e rochas com uma riqueza de detalhes que impressiona os especialistas (e até é uma pista para identificar se o desenho é dele ou não); a forma como a luz incidia ou não no objeto e na pessoa alterou projetos; as reações humanas deram personalidade, profundidade e transformaram seus quadros em obras-primas.

O autor foi fundo a partir dos Códices – que foram elaborados a partir dos escritos dele, que ele nunca organizou e publicou em vida. Muitos escritos e obras (como Leda e o cisne) foram perdidos ou desapareceram. Outras requerem muito cuidado na conservação e sofreram a ação do tempo, por isso não são como Leonardo as fez (Mona Lisa e A Última Ceia – os religiosos abriram uma porta no painel!!!). Mas eu te desafio a não se perguntar “como ele conseguiu?” em vários momentos durante a leitura. E olha que eu já conhecia a história dele e mesmo assim me deparei com vários aspectos novos, algumas coisas que eu não tinha pensado e outras que o biógrafo teve a chance de aprofundar.

Na jornada de Leonardo, saímos da aldeia de Vinci junto com o filho ilegítimo que passou a vida em busca de mistérios e deixando sua própria cota de coisas inexplicadas para a humanidade. Passamos pela Florença berço do renascimento, pela corte de Milão com o Sforza, os Bórgia e depois da dominação francesa, pela Roma do papa Medici. E percebemos tudo que ele foi capaz de fazer, aprender, se decepcionar, acertar e errar, em um período onde a inteligência fervilhava.

Gostei de aprender muito mais sobre algumas das histórias da vida dele que mais me atraem como o episódio por trás das obras inacabadas – as “Batalhas” – que os governantes de Florença tiveram a ideia de encomendar para ele e para Michelangelo (que era mais novo e declaradamente não gostava de Leonardo). Muito ego e muita genialidade para duas paredes de um salão só, fico imaginando o que deve ter sido isso. 
Segundo um relato de Vasari, Rafael foi a Florença só para ver os dois esboços que haviam causado tamanha comoção e desenhou versões dos dois. Os detalhes animados de ambas as obras inacabadas mexeriam com a imaginação e os maneirismos das gerações seguintes. (...) observou Jonathan Jones. “Nessas obras fantásticas, dois gênios tentaram superar um ao outro usando o que tinham de mais particular” 
Fiquei fascinada em perceber como Leonardo não era o esteriótipo do artista solitário e torturado. Várias descobertas e obras foram feitas em parceria e colaborações, algo que ele aprendeu desde o início quando entrou como aprendiz no ateliê de Verocchio em Florença e seguiu ao longo da vida.

Sim, o livro fala sobre as relações íntimas dele – que seria abertamente homossexual e ninguém se importava com isso (mesmo em um período pós-idade média na Europa, isso me surpreendeu) – e como isso inspirou e se refletiu em suas obras.

A gente está acostumado a ouvir que “A Virgem dos Rochedos”, “A Última Ceia”, “A Virgem e o Menino com santa Ana”, “Mona Lisa”, “O Homem Vitruviano”, os desenhos anatômicos são geniais, mas para quem é leigo este livro ajuda a entender os motivos. Eu já tinha muitos motivos para olhar fascinada para os poucos quadros dele que chegaram até nós, mas depois deste livro vou precisar encontrar outro adjetivo para quando estiver frente a frente com algum deles (Muitas vezes, a beleza me emociona, por isso, já sei que terei que me controlar pra não chorar como uma pateta). 
A Mona Lisa é o trabalho de um homem que usou tais habilidades para se aprofundar em uma vida inteira de paixões intelectuais. Os questionamentos registrados em milhares de páginas de cadernos – sobre raios de luz atingindo objetos curvos, dissecações de rostos humanos, sólidos geométricos sendo convertidos em novas formas, correntes turbulentas de água, analogias entre a Terra e os corpos humanso – o ajudaram a perceber as sutilezas na representação do movimento e das emoções. “Sua curiosidade insaciável e seus saltos incansáveis entre assuntos variados foram harmonizados em uma obra única”, escreveu Kenneth Clark sobre a Mona Lisa. “Sua ciência, sua habilidade pictórica, sua obsessão com a natureza, seus insights psicológicos, todos esses elementos estão lá, equilibrados com tamanha perfeição que, à primeira vista, dificilmente os notamos”.
Realidade, fantasia, inteligência, simplicidade, curiosidade. Perfeito em suas imperfeições. Há tanto que as pessoas podem aprender com Leonardo que eu rezo para que mais gente preste atenção na vida dele. Há muito o que contar entre o claro e o escuro de suas obras. Como o autor mesmo diz, ele soube levar o sfumato para a vida, mostrando que às vezes nem tudo precisa de linhas bem definidas.

Você já se desafiou a descrever a língua do pica-pau? 
“Às vezes a fantasia é o caminho para a realidade”
Afinal de contas, a Mona Lisa continua sorrindo.

Só faço um desabafo chatinho: alguns nomes foram traduzidos e outros não. Como me habituei a chamar Lorenzo, Il Magnifico; Giuliano e Giovanni de Medici, por tudo que já li antes, algo em mim se contorcia internamente ao ler Lourenço, Juliano e João, mesmo sabendo que estava certo.


Bacci!!!

Beta
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Um comentário :

  1. UAU !!! Eu não tinha idéia de que Leonardo Da Vinci envolveu-se com tantas facetas de conhecimento. Eu sabia sobre desenho, escultura, hidráulica, música, pintura e outras categorias - principalmente pintura - mas eu não tinha idéia de que ele estendera-se sobre uma gama tão extensa e variada de campos de estudo e prática. Eu fiquei surpresa de uma forma que deixou-me estática !!! Mas que vida proveitosa !!!

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