domingo, setembro 30, 2018

Ciao!



Este livro - que inspirou um filme - pode causar reações desconfortáveis em quem lê.
Foi o meu caso e vou dizer o motivo.

Diário de uma garota normal – Phoebe Gloeckner – Faro Editorial
(The diary of a teenage girl: an account in word and pictures - 2002)
Personagens: Minnie Goetze

O diário narra uma parte da vida de Minnie, adolescente de 15 anos, a partir da primavera de 1976 em São Francisco. Ela descobre a sexualidade, entra em conflito consigo mesma, analisa seus relacionamentos com a mãe, a irmã, os amigos e vai narrando a forma como enxerga o mundo. Ela demonstra o que se sente com palavras e com desenhos. E assim nos leva para um passeio pelo que sentiu e viveu.

Comentários:

- É um livro desconfortável porque saiu da “casinha” da maioria das minhas leituras. Li outros com temas pesados e tive reação semelhante: o estranhamento causado por algo que não me identifico logo de cara. E a vida de Minnie é totalmente díspare da experiência que tive seja adolescente ou agora.

- Por fora, a gente imagina que Minnie seja uma garota normal – ou como ela mesma diz, sem atrativos e sem beleza alguma. Mora com a mãe e com a irmã. Estuda como bolsista em um colégio. Ela começa a narrar suas experiências como filha, aluna, irmã... E a relação que desenvolve com um dos namorados da mãe, Monroe.

- A narrativa que não romantiza e não perdoa nada desperta em quem lê uma vontade irracional de julgar as atitudes dos personagens. Confesso que me vi diante deste dilema várias vezes, que também ocorreu com #MadreHooligan, que leu antes de mim. Ela me disse que não era um livro fácil, que os personagens pareciam perdidos e tomavam atitudes que não deviam.

- Eu me vi pensando que não conseguia julgar Minnie, porque, como disse, não tive que tomar as decisões que ela tomou, seja por curiosidade, carência, busca de autoafirmação, necessidade de se sentir viva e um ser humano. Não estivemos na pele da personagem e temos que confiar nas palavras dela e entender como ela se deixou abusar pelos outros e por si mesma na jornada narrada no diário. E você estará dentro da mente dela seja nas palavras ou nos quadrinhos: ela fala tudo com todas as letras. Em alguns momentos, quem lê percebe as entrelinhas antes dela.

- No entanto, considero que os adultos – dois deles, especialmente – deveriam ter agido diferente – o comportamento omisso, permissivo, desinteressado causou sofrimento para outras pessoas e para eles mesmos. Afinal de contas, ninguém aqui vai conseguir ter ou recuperar o que não tem – a juventude, dinheiro, beleza não virão pela autopiedade, pelas noites de álcool e drogas com os amigos, pelos relacionamentos confusos e descompromissados. Vou optar em não dar detalhes, para não influenciar na experiência de quem ainda vai ler. Só posso dizer, não será fácil, nem idealizado, nem romântico.

- Livros assim “desconfortáveis” ajudam a enxergar o mundo além do meu nariz ou da forma como gostaria que ele fosse – e muitos outros me satisfazem nesse aspecto. Livros assim lembram que todos carregam a própria cruz e que ela pode ficar mais leve ou mais pesada pela forma como a gente a enfrenta. Minnie termina o livro bem diferente da que inicia a jornada dizendo “Eu não me lembro de ter nascido”. E quem lê se despede da história pensando que nós nunca sabemos o que se esconde por trás do rótulo “normal” que damos aos outros. Às vezes, “normal” passa longe.


Arrivederci!!!

Beta

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