domingo, abril 07, 2019

Ciao!


Eu sou jornalista. E tenho bacharelado e mestrado em Comunicação Social.
E tenho muito ainda a aprender. Este livro comprova isso.

*** Texto originalmente escrito pro Livrólogos, que a Rosana gentilmente permitiu que fosse publicado no Literatura de Mulherzinha. Obrigada, Rô! ***

Correspondentes – Memória Globo – GloboLivros
(2018)

Era uma vez... uma garota que, de tanto ler National Geography quando era criança, cismou que um dia escreveria e veria uma matéria naquelas páginas.
(Engraçado que eu sempre pensei em escrever, nunca em tirar fotos – uma marca registrada da revista, graças ao trabalho de fotógrafos excepcionais)
Até que, na faculdade, meu melhor amigo (que é o bom senso em pessoa) me disse que nunca me imaginaria em um lugar inóspito atrás de uma matéria.
E ele tinha razão: acabei descobrindo e me estabelecendo em novos sonhos – onde faço o possível para ser tão útil quando se tivesse me tornado a aventureira da National Geography.

Isso veio à minha mente enquanto eu lia as memórias dos 20 correspondentes nos escritórios da Rede Globo no exterior, desde a criação até 2018. Não é a primeira vez que este assunto aparece no Literatura de Mulherzinha: já escrevi aqui sobre o livro Crônicas de Repórter, do Pedro Bial, onde ele transformou em crônicas momentos da carreira jornalística.

Depois de ler as experiências de Sandra Passarinho, Lucas Mendes, Roberto Feith, Luís Fernando Silva Pinto, Ricardo Pereira, Sérgio Motta Mello, Sílio Boccanera, Renato Machado, Ernesto Paglia, Pedro Bial, Ilze Scamparini, Caco Barcellos, Sônia Bridi, César Tralli, Marcos Uchôa, Edney Silvestre, Jorge Pontual, Marcos Losekann, Roberto Kovalick, Rodrigo Alvarez, tive uma certeza de que nenhuma pessoa normal faz jornalismo.

Quem faz jornalismo sabe que vai ser criticado não importa o que faça. Ainda mais agora, em tempos tão polarizados, as pessoas querem que você concorde com elas, porque não querem diálogo, querem ter razão – volta e meia vejo nas redes sociais “só a minha opinião importa, nada mais”.

O probleminha é que vivemos em sociedade, um monte de opiniões conflitantes e de situações que precisam ser mostradas e refletidas. “Ah, mas o que uma guerra lá longe tem a ver com o Brasil?” Muita coisa. Neste mundo, se um país entra em crise, outros podem se ver afetados – de diferentes formas - antes do sol nascer.
Por isso é importante ouvir, saber e conhecer realidades diferentes das nossas. Todos os correspondentes citaram isso: que buscam mostrar o país onde estão pelo viés do impacto na rotina do brasileiro. Seja um avanço tecnológico, um caso raro, como eles celebram o Natal, a rotina do Vaticano, a família Real da Inglaterra, as notícias do presidente dos Estados Unidos, terrorismo, as tragédias naturais e as guerras.

Ah, as guerras. Muitos deles estiveram em países da América Central e do Oriente Médio para cobrir conflitos. Os relatos destacam os riscos para a população, para as equipes de reportagem (em locais tensos, as pessoas atiram, não importa em quem), os limites para ir atrás da notícia. E também mostrar as consequências, como a imigração em massa dos locais em guerra para a Europa – onde as pessoas não hesitam em colocar a vida em risco para fugir de uma situação pior.


Todos os correspondentes relataram as dificuldades de viver fora do Brasil, desde se estabelecer, a se comunicar (pensa em todos que foram para a China e para Tóquio, linguagem e realidade bem diferentes da nossa). Também mostraram como se viraram quando a vida era menos tecnológica ou mesmo quando os avanços não facilitaram o trabalho. Ou quando foram sozinhos para determinado país e contaram com apoio de equipes locais. Parece aventura, mas desgasta.

Aliás, vários contaram o desgaste emocional da profissão. De ver, ouvir e sentir as dores, mazelas, sofrimentos dos outros. Nenhum repórter pode se deixar levar, mas também não pode se impedir de ter empatia – e isso causa traumas em quem conta a história. Algumas imagens nem chegaram a ir ao ar, mas não saíram da cabeça de quem as viu.

Também destacaram quais características um jornalista que quer ser correspondente precisa ter: saber falar mais de um idioma é fundamental; ser curioso; observador; ler muito; entender em que lugar está e qual a melhor forma de mostrá-lo para o Brasil; aguentar trabalhar sob pressão; ter ideias rápidas; saber trabalhar em equipe; ter limites; ser corajoso, mas não ser imprudente; como agir diante de uma informação em primeira mão ou como contar – com um diferencial melhor – aquilo que já foi contado antes.

Reparou que eu não citei especificamente nenhum episodio que foi narrado, né? E tem histórias maravilhosas e doídas. Que graça teria eu contar? Você tem que ler para saber como todos eles lidaram com isso e o trabalho que deu desde a descoberta até o material ir ao ar. Não se faz TV – nem jornalismo - em passe de mágica. É muito trabalho, mesmo. Posso garantir.

Pessoas normais correm deste tipo de encrenca – por que é uma baita encrenca. Outros – como eu – correram e correm todo santo dia de braços abertos em direção a ela. Eu ajudo a contar as histórias da minha cidade e região. Eles viajam e trazem para a gente momentos do mundo. E a gente percebe que muitas coisas – boas e ruins – não tem fronteiras.

Nem todos os correspondentes de que me lembro participam do livro. Senti falta do Márcio Gomes (que foi depois do Kovalick para o escritório em Tóquio e voltou ao Brasil neste ano, sendo substituído por Carlos Gil); da Déliz Ortiz (correspondente em Buenos Aires); Renata Ceribelli e Hélter Duarte (correspondentes nos Estados Unidos); do André Luiz Azevedo (correspondente em Portugal); Pedro Bassan (China, antes da Olimpíada de 2008) e Renato Ribeiro (na Alemanha, antes da Copa de 2006 e África do Sul, antes da Copa de 2010). Ou seja, é possível fazer um Correspondentes 3 tranquilo.

Mas Correspondentes 3? Não está errado. É que minha outra sugestão para o Memória Globo é fazer um Correspondentes 2 com os repórteres cinematográficos. Gostei muito das histórias que eles contam neste livro, mas o foco está nos repórteres. Seria legal ter um livro apenas para os cinegrafistas porque muitas pessoas se interessam por estar nos bastidores e querem ouvir a experiência de quem viu e registrou o mundo por trás da lente da câmera.

- Links: Goodreads livro e autorsite da editora; site do Memória Globo; matéria do G1; Skoob; programa Conversa com o Bial de 3 de setembro (com a presença da Sônia Bridi, do Luís Fernando Silva e do Ernesto Paglia).

Bacci!!!

Beta
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