quinta-feira, abril 25, 2019

Ciao!




Não discuto mais com minha intuição literária, ou como brinco, meu “sensor aranha” para livros. Se algo me diz “leia!”, simplesmente dou um jeito de conseguir.

Sabe aquele livro que você nunca pensou em ler, sobre um assunto que você, mesmo neste mundo marcado pela overdose de informação, nunca atinou com todas as letras?

Pois é, foi meu caso com este livro. Foi o que houve aqui. A capa e o título chamaram minha atenção. Pronto, não sabia, mas havia encontrado um dos melhores livros deste ano.

E agora estou recomendando para todo mundo, porque a pesquisa da dra. Brené Brown fala diretamente sobre coisas que todo mundo já passou/está passando. E a gente não percebe o quanto isso pode ser tóxico na nossa vida.

Para ilustrar, recorri a algumas tirinhas que a incrível Sarah Andersen publicou no Twitter.

Eu achava que isso só acontecia comigo: Como combater a cultura da vergonha e recuperar o poder e a coragem – Brené Brown – Sextante
(I thought it was just me: Women reclaiming power and courage in a culture of shame - 2007) 
A vergonha é um sentimento ou uma experiência intensamente dolorosa de acreditar que somos inadequadas e, portanto, indignas de aceitação ou de acolhimento. As mulheres costumam experimentar a vergonha quando se veem emaranhadas numa teia de múltiplas camadas de expectativas sociocomunitárias conflitantes e antagônicas. A vergonha cria sentimentos de medo, recriminação e desconexão.

Exatamente. Vivemos, sofremos e replicamos a “cultura da vergonha” todo dia nas nossas vidas. Às vezes, sem perceber, porque nos condicionaram ou nos condicionamos a isso. Muitas vezes sem admitir os efeitos que sentimos, porque, ah, ninguém vai nos levar a sério.

Mas a Dra. Brené Brown levou (assim como outras pessoas que ela cita ao longo do livro). A professora e pesquisadora na Universidade de Houston, há 16 anos estuda a coragem, a vulnerabilidade, a vergonha e a empatia. Neste livro, ela trata sobre a vergonha – especialmente como uma cultura que restringe e limita a vida das mulheres, provocando consequências que podem levar até a doenças. 

Ao passarmos por uma situação de vergonha, nos sentimos expostos, vulneráveis e deixamos de ver o todo para enxergar uma parte – justo a que não favorece sentimentos positivos e torna tudo pior.
“A vergonha vem de fora – das mensagens e das expectativas de nossa cultura. O que vem de dentro é uma necessidade muito humana de pertencimento e de relacionamento.” 
“Nossa cultura nos ensina sobre a vergonha – é ela que dita o que é aceitável e o que não é. Não nascemos ansiando por corpos perfeitos. Não nascemos com medo de contar nossas histórias. Não nascemos com o medo de envelhecer demais e acabarmos não sendo mais valorizadas”.
(...) Ao vivenciar a vergonha, reagimos com todo o nosso ser. Trata-se de uma experiência que afeta a forma como sentimos, pensamos e agimos, e, com frequência, apresentamos uma forte reação física diante da vergonha. Em outras palavras, a vergonha é uma emoção de fundo – ela nos atinge no cerne e irradia por todo nosso ser.
Por meio de vários expedientes, a “cultura da vergonha” faz com que as mulheres se sintam desconfortáveis na própria pele, por nos tornarmos reféns de uma expectativa irreal imposta pelos outros ou por nós mesmos.

Segundo ela, há estudos que já consideram a vergonha como “uma epidemia silenciosa” pela dificuldade em falarem sobre ou como ela afeta e influencia a própria vida, família e todo o entorno. Por isso, não é incomum que as mulheres se revezem nos papéis de vítimas e algozes umas das outras e de quem convive com elas. 
A vergonha desfaz nossa conexão com os outros. De fato, costumo chamá-la de “medo da desconexão” – o medo de ser percebida como inadequada e indigna de aceitação ou acolhimento. A vergonha nos impede de contar nossas histórias e de ouvir as pessoas contarem as suas. Silenciamos nossas vozes e guardamos nossos segredos por medo da desconexão.

Por isso é necessário entender que, sim, a “cultura da vergonha” é organizada por gênero. Os fatores que desencadeiam o processo nas mulheres são bem diferentes do que ocorre com os homens (no caso deles, o fator opressor principal é nunca aparentar ou ser fraco, conforme pontos já percebidos em um estudo específico que estava em andamento na época que o livro foi escrito). E isso aparece em todo o entorno, reforçada em todas as opções de mídia possíveis.
As mulheres com frequência experimentam a vergonha como uma teia de expectativas sociocomunitárias, formada por camadas conflituosas e contraditórias. Tais expectativas ditam: quem devemos ser, o que devemos ser, como devemos ser.
“Definirei quem você é e então farei com que acredite que essa definição é de sua autoria.” Essa explicação estarrecedora [da psicóloga Robin Smith] captura o que a vergonha faz conosco. Ela nos obriga a botar camisas de força designadas pelo gênero e depois nos convence de que nós a vestimos sozinhas e que gostamos de usá-las.
Como nós, eles [os homens] experimentam a vergonha como o sentimento ou experiência intensamente doloroso de acreditar que somos inadequados e que, portanto, não somos dignos de aceitação ou acolhimento. Para os homens, tudo se centra em torno da masculinidade e do que significa “ser um homem”. Para os homens, tudo se centra em torno da masculinidade e do que significa “ser um homem”. Em outras palavras, como experimentamos a vergonha pode ser igual, mas “por que experimentamos a vergonha” é bem diferente.

Dra. Brené Brown destacou que várias mulheres entrevistadas relataram se sentirem isoladas, sozinhas, sem apoio de pessoas próximas ao passarem por situações de vergonha. E isso alimenta sentimentos como desespero, desesperança, solidão – o que “obriga” as mulheres a fazerem qualquer coisa para não se sentirem excluídas. Inclusive replicar ou transmitir os padrões impostos aos outros.

Além disso, a partir de várias entrevistas com mulheres de diferentes situações, elenca possibilidades de desenvolver resiliência à vergonha e aprender a tirar algo de bom e não se deixar levar pelos efeitos ruins da experiência. Tudo começa com a gente encontrando o nosso poder verdadeiro, baseado no tripé consciência, escolha e mudança.
O Dicionário Merriam-Webster define poder como “a capacidade de agir ou de produzir um efeito”. O poder verdadeiro é basicamente a capacidade de modificar algo que se quer modificar, de promover mudanças. O poder verdadeiro existe em quantidade ilimitada – não é preciso brigar por ele. E o bom é que temos capacidade de criá-lo. Ele não nos obriga a tirar nada de ninguém – é algo que criamos e construímos com os outros.
Ao optar – e principalmente PRATICAR – pela mudança, identificando os gatilhos da vergonha, buscando pessoas a quem recorrer para analisarmos de forma ampla a situação e identificar aspectos positivos que levam à superação, entendemos o problema, os impactos e, olhem só, a importância de não fazer isso com ninguém. Ou seja, despertamos a resiliência à cultura da vergonha.
“(...) refiro-me à capacidade de reconhecer a vergonha no momento em que a vivenciamos e passar por ela de uma forma construtiva, que nos permita manter a autenticidade e crescer a partir de nossas experiências. E nesse processo de enfrentar conscientemente a vergonha, é possível construir conexões mais fortes e mais significativas com as pessoas. Empatia é o antídoto mais forte para a vergonha. Não se trata apenas de suprir nossa carência de empatia. A resiliência exige de nós a capacidade de reagir aos outros com empatia. Mulheres com altos níveis de resiliência à vergonha sabiam ao mesmo tempo dar e receber empatia. (...) A empatia cria um ambiente hostil à vergonha, e ela não consegue sobreviver”.
Não é fácil. Existirão momentos difíceis, porque é nadar contra a maré do que é dito – seja assim, se vista assim, se comporte assim, não quebre o padrão, não seja estranha – e nem todos vão entender. Especialmente quem está próximo. Quanto mais entendermos de forma saudável nossas virtudes e defeitos, podemos nos aperfeiçoar como pessoas, libertar das amarras desta cultura que quer nos pasteurizar por meio de expectativas irrealizáveis ao invés de valorizar o que cada um tem de melhor e de único.
Quando homens e mulheres se envergonham mutuamente e reforçam expectativas de gênero inatingíveis, a intimidade é assassinada. Se não conseguimos ser autênticos, não somos capazes de nos conectar de um modo significativo. Nossos relacionamentos se afastam da compaixão e da conexão em direção ao medo, à recriminação e à desconexão. Acho que ninguém deseja isso para si mesmo ou para nossos filhos.
Esse texto ficou enorme? Sim.
Mas viu como tudo faz MUITO sentido? Basta reparar como essa cultura da vergonha está inclusive na base de vários romances – de banca, livraria, badalados ou não – que lemos.


Dra. Brené Brown, muito obrigada por todo o seu esforço. Não sabe o quanto me fez bem. E por isso recomendo: se tiver a chance leia e reflita sobre este livro e PRATIQUE. O mundo pode ser melhor, se a gente se esforçar para sermos melhores de uma forma positiva, não sob as amarras doentes de expor nossas fraquezas, ao invés de ajudar a enfrentá-las e evoluir. 
Somos programados para a conexão. Ela está em nossa biologia. Como bebês, nossa necessidade é uma questão de sobrevivência. À medida que crescemos, a conexão significa prosperar dos pontos de vista emocional, físico, espiritual e intelectual. A conexão é crucial, pois todos temos a necessidade básica de nos sentir aceitos e de acreditar que pertencemos ao grupo e somos valorizados pelo que somos. Acredito que é possível criar uma cultura da conexão apenas fazendo escolhas diferentes. A mudança não exige heroísmo. A mudança começa quando praticamos a coragem comum. 

Arrivederci!!!

Beta
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