quinta-feira, maio 02, 2019

Ciao!



Nesta quinta-feira, 2 de maio, completam 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Um homem imperfeito, genial, com uma mente inquieta à frente do tempo.
Deixou obras-primas para a humanidade. Uma delas se tornou pop e permanece desafiando pesquisadores, estudiosos, curiosos e apaixonados: o retrato de Mona Lisa – o quadro que estava com ele até o fim da vida, na França.
E este livro é uma jornada sobre as perguntas a respeito desta mulher.

Mona Lisa: a mulher por trás do quadro – Dianne Hales – José Olympio
(Mona Lisa: a life discovered - 2018)

A jornalista Dianne Hales realizou meu sonho pessoal: foi várias vezes à Florença para estudar, aprender e pesquisar. O objetivo dela era entender quem pode ter sido Lisa Gherardini, a mulher retratada por Leonardo da Vinci no quadro mais conhecido do mundo. 
Embora não tenha nenhuma pretensão de ser uma especialista, historiadora, arquivista ou leonardista, a jornalista que há dentro de mim sente imediatamente que a mulher de carne e osso nascida nesse quarteirão imundo tem uma história própria, que se estende de forma profunda no passado e é fabricada na rica indústria da história de Florença. Determinada a encontrar algo a mais, comecei a fazer as perguntas básicas da minha profissão: quem, onde, o que, quando, como e – a mais misteriosa – por quê. 
Ao contrário de A vida secreta de Mona Lisa, que é uma biografia romanceada ou da ficção de O Código da Vinci; Dianne Hales seguiu a linha de Walter Isaacson, autor de Leonardo da Vinci e pesquisou locais, entrevistou pessoas, desde possíveis descendentes dos Gherardini, consultou arquivos atrás de fatos sobre quem era Mona Lisa.

Claro que considerou as vertentes tanto discutidas do retrato ser de um homem, de outra mulher, ou que Lisa de Gherardini se relacionou com os Médici. No entanto, a a versão que tem mais embasamento por documentos que sobreviveram ao tempo é a de que ela era filha mais velha de uma família empobrecida que se casou com o comerciante Francesco di Giocondo.

Focado nesta mulher que intriga a humanidade, o livro é uma aula deliciosa e detalhada sobre o período em que Lisa e Leonardo e outros personagens viveram entre o fim do século 15 e início do século 16: da criação à era áurea em Florença, incluindo as invasões, guerras, lutas políticas, altos e baixos econômicos.

Com base nestas pesquisas, ela traça as origens das famílias Gherardini, Giocondo, Vinci e de outras relacionadas – como todos se estabeleceram em posição de certo destaque em Florença. Como eram os costumes da época, desde o vestuário, até as normas de comércio, etiqueta, sociais e religiosas. Neste livro – e nos anteriores que já li – sinto uma Florença efervescente, instável e inflamável, um dos centros de muitas mudanças em andamento no período. 
Em 1469, Lorenzo de Medici – o estadista, o estudioso, o atleta, o espadachim, o escritor, o músico, o poeta, o colecionador – sucedeu seu pai no comando da cidade. Nos anos de Camelot de seu reino, os florentinos estavam felizes com a própria fortuna e aproveitavam esse momento glorioso. Fascinados pela beleza, eles transformavam qualquer coisa – um sapato furado, uma roupa puída, uma adaga enferrujada – em uma obra de arte. 
O que era esperado de uma mulher na Renascença – e não eram muitas as possibilidades: sobreviver (consideradas inferiores), crescer, manter-se virtuosa, conseguir um bom casamento, ter filhos (muitas morriam no parto), cuidar da casa. Opção? Convento. Mesmo assim dependiam do dinheiro para obter um bom marido ou comprar o acesso à vida religiosa. Algumas conseguiram se destacar em papeis inesperados delas, mas sem ir além dos limites impostos a elas por serem mulheres.

A partir da pesquisa de Hales, surge uma Lisa de Gherardini del Giocondo muito além do que vemos no retrato. Pensamos na pessoa que existiu, sentiu alegria, criou os filhos, enfrentou crises ao lado do marido, se preocupou, sofreu dores e perdas e posou para um quarto que a tirou do anonimato para a eternidade.

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Isso instiga ainda mais o mistério: por que Leonardo retratou com tanta meticulosidade e engenhosidade – tudo indica que ele fez vários retoques no quadro até quase o fim da vida – a esposa de um comerciante? 
“‘Aos olhos de Leonardo, ela não era alguém que devia ser desejada. Ele a olhou de uma forma diferente dos outros homens. Esta pode ter sido a razão pela qual ele viu – e pintou – Lisa Gherardini não como um objeto ou como um ideal, mas como um ser humano completo’. Essa era uma perspectiva sobre la donna vera que eu já mais tinha considerado”. 
Dianne Hales cruza a história de uma cidade, de um contexto político, artístico, com as famílias e descendentes e cria um relato que prende a atenção até o final. A variedade de fontes pesquisadas – mesmo as mais duvidosas – só comprova o fascínio exercido por fatos ocorridos há mais de 500 anos. 

Como um quadro que foi apropriado pela cultura pop, criado na Itália, adotado pela França (a ponto de causar comoção quando foi roubado do Louvre no início do século 20, como conta uma das histórias de Alguém viu a Mona Lisa?) pode levar a tanto conhecimento sobre esta herança para a humanidade, que desperta sempre novos questionamentos e leva a mais aprendizado e cada vez maior encantamento. 
“(...) então percebo que talvez seja por isso que seu sorrido encanta a todos: o fato de que Lisa é alguém como nós. Naquele rosto, naqueles olhos e, em especial, naquele sorriso vemos o reflexo dos segredos guardados em nossas almas”. 
Grazie mille, Lisa.
Grazie mille, mestre Leonardo.


E, além de renovar meu interesse em ir à Florença e ver alguns dos cenários que Dianne Hales viu e narrou aqui, concluí mais um livro da minha Meta de Leitura em 2019.

- Links: Goodreads livro e autora; site da autora; Skoob; Amazon.

Bacci!!!

Beta


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