domingo, março 01, 2020

Ciao!

Disponível na Amazon  
"Não nos esqueçamos nunca de que nós temos o direito à palavra. E que as palavras são o nosso principal instrumento de liberdade. Sempre que dizemos o que sentimos e pensamos, sempre que manifestamos nossos medos e angústias, sempre que expomos nossas ideias e verbalizamos os nossos descontentamentos, estamos libertando centenas de outras mulheres junto conosco. Sempre que quebrarmos o silêncio, estaremos mudando o mundo aos poucos".
Não é à toa que o subtítulo deste livro é “direitos, trabalho, família e outras inquietações do século XXI”. Muitas garotas – independente da idade – vão se identificar.

Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas – Ruth Manus - Sextante
(2019)

Este é o caso de um livro que me ganhou pelo título. Se você for mulher e nunca se sentiu exausta, sinta-se privilegiada. Quando vi o sumário, pensei que seria impossível tratar de tantos assuntos em menos de 200 páginas.

No entanto, a autora-madrasta-advogada-esposa-palestrante conseguiu sintetizar de forma direta e bem clara para quem está lendo as sofrências, os dilemas, as exigências que o mundo comandado por vários preconceitos aplica nas mulheres. 
“No livro (O segundo sexo), muito resumidamente, a autora (Simone de Beauvoir) afirma que, na medida em que o homem é o padrão, a mulher é considerada ‘a outra’, sem que o inverso se dê. A mulher nunca vê o homem como ‘o outro’, mas sim como o centro, a normalidade. Ou seja, a regra é ser homem. Ser mulher é a exceção à normalidade”. 
Basta pensar como as mulheres são julgadas o tempo todo: por si mesma, pelos vizinhos, pelos conhecidos, por quem trabalha com elas e até por quem não as conhecem.

Um exemplo recente: uma foto levou uma mãe mineira a ser criticada, julgada e condenada por várias pessoas. O motivo? O filho preso em uma “coleira” enquanto ela mexia no celular. Quem fez o “flagrante” não foi identificado. A mãe usou as redes sociais – e depois as várias entrevistas que concedeu – para explicar que o garoto é diagnosticado no espectro autista e a mochila-coleira dá uma liberdade segura a ele, enquanto ela chamava um carro por aplicativo.

Quer outro exemplo recente? As primeiras semanas do BBB20 foram marcadas por discussão sobre assédio de dois confinados a três das participantes. Nenhuma das vítimas – e várias pessoas que assistiram – não considerou assédio. Mas a Delegacia de Mulheres da Polícia Civil viu diferente e abriu inquérito. Foram anos de comportamentos impunes até agora, quando percebemos que há limites que não podem ser cruzados se não houver consenso (e é totalmente inaceitável se envolver menores de idade que não tem discernimento para isso). Isso quando a gente não esbarra com uma situação dessas onde a vítima é culpada.

E este é um dos pontos que Ruth Manus aboeda: a culpa é algo que faz parte da vida da mulher. 
“É como se ela estivesse pendurada numa correntinha ao redor do nosso pescoço. Um pingente de culpa que a gente nunca tira. Ele fica ali, e a cada vez que a gente se olha no espelho, lá está a culpa, lembrando de tudo o que você não fez, de tudo o que você, em tese, deveria ter feito, de tudo o que você comeu, de todos os momentos importantes nos quais você não esteve presente, de todo trabalho acumulado na sua mesa, de todas as roupas acumuladas numa cadeira qualquer no seu quarto”. 
A autora lembra que as mulheres são chatas porque são obrigadas a crer que existe um padrão de perfeição. E não importa o que você faça, nunca o alcançará. Só que isso não é dito, porque existe toda uma engrenagem para manter esta ilusão viva. E novamente, foram milênios de condicionamento que precisam ser desconstruídos. Ainda bem que surgiram várias campanhas incentivam as mulheres – vou me ater a elas, que são o assunto do livro – a se aceitarem como são e não buscarem algo irreal. 
“Antes de ajudar o outro, é preciso cuidar de si mesma. Os comissários de bordo nunca falam por que você tem que colocar a sua máscara primeiro, mas a razão é simples: porque senão você morre, e morta você não ajuda a pessoa ao lado.” 
Sim, a mulher é criada com a expectativa de manter o mundo doméstico girando. De “salvar relacionamentos”, garantir que os “filhos e filhas se tornem cidadãos impecáveis” (afinal de contas, pense em todos os xingamentos contra as mães proferidos ao Deus dará por aí), de ser uma profissional excelente e dar conta de tudo sem descer do salto ou borrar a maquiagem. Impossível, né? E muitas vezes quem tenta, termina adoecendo no caminho.

E o pior? É que as mulheres não são obrigadas a nada. Mas ainda há um caminho muito grande a ser construído para que o entendimento de que todas as mulheres têm o direito de escolha de serem o que e quem quiserem. 
“Além da noção de igualdade, que já mencionamos, há outra palavra essencial para entender o que é feminismo: liberdade. O feminismo quer mulheres livres. Livres para serem o que quiserem ser. Se uma mulher quiser ser uma profissional de sucesso, independente emocional e financeiramente, ótimo. Se uma mulher quiser ser esposa e mãe em tempo integral, sem exercer qualquer atividade remunerada, ótimo. Se uma mulher quiser andar com roupas sensuais, justas e decotadas, perfeito. Se uma mulher quiser usar roupas tidas como masculinas, perfeito. Não importa. O feminismo abraça cada uma de nós na nossa individualidade e nas nossas escolhas”. 
Vocês já ouviram falar de Olympe de Gouges? Eu não. Aqui foi a apresentação. Nunca me contaram que ela existiu e o que fez – e porque foi necessário.

Pois é, quantas outras Olympes não existiram e a gente não sabe?

O mundo ainda deixa as mulheres muito chatas. Temos que seguir em frente, chatas ou não, pelo direito e a liberdade de ser mulher. Ainda falta muito a ser feito. Por nós e por todas que virão.

O livro foi uma leitura rápida, reflexiva, cita várias outras autoras, pesquisadoras – faz com que a gente lembre experiências vividas na pele ou que aconteceram com outras pessoas, repense nossas próprias posturas e se questione como fazer este mundo melhor para todo mundo. Vale a pena.


Bacci!!!

Beta

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