quarta-feira, abril 15, 2020

Ciao!

Disponível na Amazon 



“Um bom pintor tem duas coisas importantes que deve pintar, que são as pessoas e o propósito das suas almas”. 
No dia 15 de abril de 1452, nasceu Leonardo da Vinci, que é uma das pessoas que passou na Terra que mais me fascina.

No ano passado, ganhei este livro em um sorteio no Instagram da Novo Século. E tinha certeza de que era o ideal para ser o tema de hoje no Literatura de Mulherzinha.

Leonardo da Vinci e o feminino: a representação das mulheres nas pinturas do maior gênio do Renascimento – Kia Vahland – Novo Século
(Leonardo und die Frauen – Eine Künstlerbiographie - 2019)
Ao aliar-se às mulheres, Leonardo também emancipa a arte. Esta deixa de ser a máquina dos sonhos que os clientes lhe pedem e ganha uma vida própria”. 
Esta história não é a de um gênio viril e de vítimas femininas, mas de uma comunhão feita de euforia e de criatividade. A enorme liberdade interior de Leonardo, a sua imaginação sem limites e a sua sensibilidade definem a universalidade da sua obra”. 
A historiadora da arte Kia Vahland se dedica a analisar a vida e a arte de Leonardo sob o viés da forma como ele abordava as figuras femininas. Para isso, discorre sobre a biografia dele, relacionando os conceitos da época da cidade onde estava, a vida pessoal e como ele via e executava as propostas artísticas.

A partir das obras realizadas em ordem cronológica – da juventude à velhice – passando por Florença, Milão, Mântua, Roma, Florença, Milão, França, ela relata como a visão de mundo, de arte e a pesquisa e a busca pelo conhecimento se refletiram na forma como Leonardo retratou as mulheres. E como ele rompeu o formato utilizado até então. 
“Aos olhos de Leonardo, a natura é um poder feminino e as mulheres dispõem de um poder maravilhoso que sempre o interessou durante toda a sua vida: o poder de dar a vida”. 
Kia Vahland destacou que Leonardo relaciona a natureza e as mulheres desde a fase inicial da carreira. O interesse nele em entender a lógica de funcionamento da natureza, o fez caminhar por as montanhas, seguir os cursos d’água, até entrar em cavernas. Observar relevos, direção do vento, efeitos da luz e sombra – não é à toa que ele desenvolveu o sfumato – e como este universo poderia ser captado para uma obra de arte.

E onde entram as mulheres neste contexto? Na perspectiva dele, as mulheres e os pintores compartilhavam a centelha da criação: elas geravam vida e eles a criavam nas telas.

Por isso, ele as dota de personalidade, de movimento, de relevância – as Madonnas (Virgem Maria) estão sempre em um contexto de força, de responsabilidade pelo próprio destino e em meio ao ambiente livre ou à natureza, longe do confinamento a que as mulheres eram submetidas. Mesmo quando retratadas de perfil, na fase inicial, não se mostram submissas, mas sim conscientes da própria força, ampliada pela maternidade do Filho de Deus.   
“As grandes mães parideiras de Leonardo não podem deter o catastrófico curso do mundo e limitam-se a lutar pela vida, pela comunidade e pela juventude. A sua vida só pode ser verdadeiramente valorizada por quem, como Leonardo, conhece o contexto geral”. 
A jovem poetisa Ginevra de Benci era a “tigresa das montanhas”. Ao retratá-la, Leonardo encontra a si mesmo como artista: aquele que entende a “pintura como uma arte consciente e segura de si”. Para a autora, é a beleza de uma pintura inconformista, algo que favorece a arte e a mulher.

A obstinação, o dinamismo, a autoconfiança e a inteligência de Cecilia Gallerani foi retratada em uma dinâmica pose com um arminho, um animal de múltiplos significados relacionados a ela e ao amante, Ludovico Sforza, então governante de Milão. Este movimento de reação a algo que não podemos ver – porque está na linha dos olhares da jovem e do animal – criado por Leonardo “dão à pintura a sua capacidade agressiva, o seu movimento, a sua força motora e a sua alma”.

A jovem desconhecida retratada em La Belle Ferronnière prende o observador pelo olhar expressivo. Ele não se desvia de quem a encara e parece até desafiar. Incentiva um diálogo entre obra e público e o instiga se perguntar quem é esta mulher.

A margravina de Mântua e colecionadora de arte Isabella d’Este não poupou esforços para ser retratada por Leonardo. Queria poder mostrar como ela própria se enxergava: fria, determinada, claramente superior aos homens – além de ser parte de uma política promocional. Esbarrou no interesse do artista, que preferia a essência das mulheres aos caprichos de soberanos. O máximo que conseguiu foi um esboço que exaltava quanto ela era soberana, mas o quadro nunca foi feito.

A autora analisa das dinâmicas por trás da Última Ceia, Leda e o Cisne, a batalha de egos inflamados e inflamáveis com Michelangelo, o mural abandonado de A Batalha de Anghiari, dentro da biografia de altos e baixos de Leonardo. Não foi à toa que ele ficou famoso por procrastinar, largar projetos que não o interessavam porque sua mente curiosa e sedenta estava focada em buscar respostas aos questionamentos para melhor entender o mundo.

Depois de retratar Madonnas e dar “voz e intelecto” às jovens conhecidas ou não, finalmente, Leonardo se deparou com a mulher que se tornaria a sua obra-prima, a “mulher do mundo”. Lisa del Giocondo, la Gioconda, a Mona Lisa. 
“É uma mulher que representa todas as mulheres. E pela qual Leonardo se permite todas as liberdades artísticas”. 
A autora alega que há muitos pontos em aberto sobre como os caminhos dos dois se cruzaram, muitas histórias paralelas e possibilidades sobre as quais ainda não há respaldo e dados historicamente comprovados. Mas o fato é que em algum momento na primeira década de 1500, Leonardo fez o retrato da jovem esposa de um influente comerciante florentino.

Este retrato se tornou a obra de arte mais conhecida do mundo e parece ainda uma fonte inesgotável de possibilidades interpretativas. O capítulo em que Kia Vahland se debruça sobre ele é bem interessante por ir costurando tudo que Leonardo aprendeu ao longo do processo e culminou neste quadro: seja a técnica, seja a arte, seja como pessoa. O resultado foi um quadro que tem vida. 
“A Mona Lisa do retrato conhece a vida e nos seus olhos vive uma alma e quem quer que esteja diante dela, e não apenas o seu marido, pode sentir-se escolhido e agraciado pelo seu olhar” 
Não é à toa que é um dos quadros que estavam com ele até o fim da vida. Além da Gioconda, ele levou A Virgem e o Menino com Santa Ana e São João Batista.

E a autora destaca que Leonardo inovou ao fazer o observador parte da obra ao ficar capturado no olhar, intrigado com o movimento em uma obra de arte, buscar entender os detalhes das paisagens de fundo mesmo quando elas não se complementam. Sem esse diálogo, as obras de Da Vinci não funcionam. Para ela, a universalidade e essa acessibilidade a todas as gerações faz com que o gênio renascentista seja sempre atual, mesmo séculos depois de quando viveu e criou. E isso fez diferença para outros artistas contemporâneos ou não dele.
“Leonardo viu as mulheres do seu tempo como elas nem sempre foram capazes de se verem: seres livres cheios de energia cinética, mães e namoradas capazes de amar, pensadoras atentas e conhecedoras da natureza. (...) Com os seus modelos, o artista emancipou à sua maneira as mulheres”.
Como sugestão à editora, vale uma revisão para as próximas edições. Há muitos erros bobos de digitação - um ou outro ainda entendo, mas aqui realmente vale reler e corrigir. Outra coisa que não entendi foi traduzir a alguns nomes em italiano - Lourenço, Pedro, João e Juliano de Médici, por exemplo - mas manter por exemplo Andrea (que seria André) Verocchio; ser Piero da Vinci e Pietro Bembo (ambos Pedro) e Francesco Melzi. 

Achei que faltou um padrão - ou traduz todo mundo ou não traduz nenhum. Particularmente, eu prefiro a segunda opção.  

No entanto, devo destacar a maravilha que é a capa nacional, com encadernação dura e um efeito que mistura as mulheres das obras- chave e enganando nossa visão sobre qual/quais delas estamos vendo. 

- Links: Goodreads livro e autora; Skoob.

Bacci!!!

Beta

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