sábado, julho 25, 2020

Ciao!
Disponível na Amazon 


Hoje é dia do escritor e o capítulo 1.700 do Literatura de Mulherzinha. 
Nada melhor que um livro que fala sobre o processo criativo em uma família onde a literatura encontrou um campo fértil para se manifestar. 

Os manuscritos perdidos de Charlotte Brontë – Faro Editorial 
(The lost manuscripts of Charlotte Bronte – 2018 – The Brontë Society)

Confesso que não conheço muito sobre a família Brontë. Já vi um filme que adaptou Jane Eyre (escrito por Charlotte) e li O Morro dos Ventos Uivantes (escrito por Emily) há um bom tempo. Portanto, este livro me ajudou a conhecer um pouco mais sobre eles. 

Este livro é formado por manuscritos de Charlotte Brontë, com colaborações de Anne Dinsdale (que escreveu o prefácio), Barbara Heritage, Emma Butcher, Sarah E. Maier, Ann-Marie Richardson. 

As especialistas convidadas pela Sociedade Brontë analisam como as perdas de Maria e das duas irmãs mais velhas, Maria e Elizabeth, marcaram a vida e a escrita dos irmãos Branwell, Charlotte, Anne e Emily e do pai, Patrick. 

Para quem é fã da escrita dos Brontë, o livro oferece novas luzes sobre como algumas fontes que alimentaram a criatividade deles e que foram expressas nas obras que criaram. 

O ponto de partida é a relação que as crianças Brontë estabeleceram com um livro que pertenceu à mãe, Maria: The Remains of Henry Kirke White além da juvenília escrita pelos irmãos. Eles trabalhavam em duplas, uma formada por Branwell e Charlotte, a outra por Anne e Emily. E isso também traz informações sobre o pai, Patrick, que se orgulhava de ter estudado com o Henry Kirke White na universidade. 

De acordo com os pesquisadores, o exemplar de The Remains of Henry Kirke White sobreviveu a um naufrágio. O navio onde estavam os pertences de Maria Brontë encalhou. Ele esteve entre os itens que conseguiram ser recuperados. Depois, quando ela morreu, ganhou novos contornos com o marido, o filho e as filhas acrescentando comentários, desenhos e anotações nas páginas. 

Ao ser reencontrado, em 2015, o livro havia se tornado ainda mais valioso por conter manuscritos de Charlotte Brontë. Após o contato de uma loja rara de livros, a Sociedade Brontë realizou uma campanha para angariar recursos – no Brasil, a popular “vaquinha” – e o adquiriu. 

No primeiro ensaio “A arqueologia do livro”, Barbara Heritage traça a possível jornada e esclarece as transformações sofridas pelo exemplar de The Remains of Henry Kirke White desde Maria até a recuperação pela sociedade que preserva a memória e tudo referente aos Brontë. 
“O Remains é um objeto extraordinário, finalmente, porque os antigos donos colocaram muito de si entre as páginas: suas histórias, seu conhecimento, seus valores e, por último, seu desejo de estabelecer um vínculo permanente com o livro como um objeto físico. Poucos objetos podem fornecer tantas provas tanto de sua origem quanto de suas viagens. Cada inscrição dentro do Remains – cada camada encadernada entre suas capas – indica uma miríade de coleções, pessoas e ideias correlacionadas”. 
Outros dois ensaios escritos por doutoras se dedicam ao manuscrito de Charlotte e o enredo da juvenília – obras escritas ainda na adolescência – dos quatro irmãos sobreviventes. Eles criaram um mundo imaginário chamado de Cidade de Cristal, estabelecendo história dos personagens, localização e muita riqueza de detalhes. 

Emma Butcher analisa em “Uma visita a Haworth” como dois personagens da Cidade de Cristal interagiram com personagens inspirados em pessoas reais na vila onde a família vive. 
O que esse manuscrito oferece individualmente, no entanto, é o cenário. Ao trazer o mundo de fantasia até Haworth, temos uma visão clara de Charlotte se relacionando, mesmo que ofensivamente, com a sua comunidade. Também percebemos que o mundo dos irmãos, construído em algum lugar na exótica costa africana, não está muito distante das suas raízes em Yorkshire. Mais do que nunca, vemos como os fatos e os personagens da comunidade local moldam as histórias, e percebemos que o reino era uma paisagem imaginária onde os irmãos podiam explorar os aspectos políticos, religiosos e até os lugares da infância: não apenas um exercício de jogos e escapismo; era uma plataforma pela qual podiam compreender e criticar o mundo à sua volta”. 
E Sarah E. Maiar escreve em “Cristais partidos” tanto sobre a prosa quanto sobre o poema, de que forma houve a colaboração entre Branwell e Charlotte e o papel da masculinidade descrita por ela nestes dois textos.
“Um elemento significativo do trabalho inicial é a multiplicidade das várias vozes masculinas empregadas tanto por Branwell quanto por Charlotte. O fato de Charlotte ‘assumir diversas máscaras lhe permite discutir com as próprias vozes polifônicas’ (Alexander, 2010, xxi) como com as de Branwell, e analisar, bem como assumir, a autoridade literária nas narrativas. Trabalhando a partir de múltiplos pontos de vista, Charlotte deleita-se com a liberdade do jogo masculino nos reinos de infância, das relações sanguíneas, dos desejos lascivos e da beleza apreendida”. 
Por fim, Ann-Marie Richardson em “Reinventando o Céu” trata do impacto de The Remains of Henry Kirke White em Emily. Junto a isso, como a morte de Maria assombra as páginas de O Morro dos Ventos Uivantes.
“No entanto, como o único romance de Emily Brontë, o ‘esboço em versos’ de Kirkle White é um retrato mais destacado da importância do lugar; de memória e imagens românticas contidas em um ambiente gótico. Os paralelos desses motivos entre as duas obras são igualmente surpreendentes, embora O Morro dos Ventos Uivantes se estenda e complemente essa história para dar à protagonista feminina, Cathy, uma defesa mais clara do que para a Margaret de Kirke White. De modo semelhante, a dissolução de Heathcliff é mais estratificada que a de Bateman de Kirke White, embora ambos sejam estoicos, enigmáticos e indesejáveis a todos, menos às amadas”. 
Uma família dedicada à literatura e marcada por mortes precoces. O que Os manuscritos perdidos de Charlotte Brontë defende é que as descobertas, tanto do Remains que ligava os filhos à mãe e os textos da juvenília de Charlotte, já incentivaram e ainda permitirão muitos estudos para preencher as lacunas e o conhecimento sobre a família para os pesquisadores e os apaixonados pela literatura criada pelos Brontë. 

- Links: Goodreads livro; site da editora; Skoob.

Arrivederci!!! 

Beta
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